O Ocidente e a pedagogia das Artes Marciais Orientais
Também em consequência da globalização estamos a assistir ao interesse que as Tradições Orientais estão a despertar. Do Oriente chegam-nos filosofias que veiculam um humanismo vivo e actuante que procura ajudar cada ser humano a aperfeiçoar-se como indivÃduo e como ser social. Ã? através da evolução individual que estas tradições visam a elevação da humanidade como um todo.
Ã?, sem dúvida alguma, um enriquecimento da nossa cultura. Na realidade, estes valores, por serem universais, existem em todas as civilizações ainda que sob formas diversas. O que acontece é que, normalmente estão sintetizados em sÃmbolos, que, se por um lado protegem a integridade da sua mensagem, por outro lado, geram múltiplas interpretações que, pretendendo orientar e esclarecer, por vezes confundem e desnorteiam.
Artes Marciais
As Artes Marciais tem sido um veÃculo de divulgação das culturas orientais, mas os princÃpios éticos que parecem constituir caracterÃsticas especÃficas suas existem igualmente no ocidente. Exemplo são o código medieval dos sámurais, o «Bushido», e o código de conduta dos cavaleiros da Idade Média. A diferença dos respectivos impactos na sociedade actual resulta de, no Oriente a Idade Média ter chegado praticamente até ao século XX, e, no Ocidente, ter terminado há mais de trezentos anos.... Quer dizer que nós, ocidentais, antes de termos tido contacto com as artes marciais orientais, o que aconteceu apenas por volta dos anos 50 do século passado, tÃnhamos evoluÃdo para preocupações ética e socialmente mais abrangentes como, por exemplo, a «Carta dos Direitos Humanos» que os orientais receberam do Ocidente ...
Assim, no presente contexto sociocultural, as Artes Marciais apenas ganham sentido e afirmam a sua dimensão pedagógica se, munidas de uma ética aplicada pela positiva, desenvolverem nos praticantes uma visão humanista do mundo. Considerar as Artes Marciais como métodos de defesa não é nada interessante, apesar de, paradoxalmente, a sua essência ser o combate entre dois adversários.
Ã? com o objectivo de mostrar que o combate pode ser um instrumento pedagógico privilegiado, onde é possÃvel vivênciar princÃpios elevados, que em seguida, se apresenta uma perspectiva de renovação do interesse que estas Artes Orientais suscitam.
Budismo
Segundo o Budismo, são seis as práticas que formam a base do modo de vida do bodhisattva. São elas a generosidade, a disciplina ética, a paciência, a perseverança ou esforço alegre, a concentração meditativa e, por ultimo, a consciência discriminativa ou sabedoria.
Bodhisattva é o praticante espiritual que gera a mente altruÃsta cuja aspiração visa atingir a iluminação completa para benefÃcio de todos os seres.
Os Bodhisattvas fazem voto de permanecer no ciclo da existência para ajudar todos os seres sensÃveis e conscientes em vez de procurarem a libertação apenas para si próprios.
Para o praticante do Budismo existe um texto fundamental que descreve as práticas essenciais do caminho do Budismo Mahayana para a iluminação.
Esse texto da autoria de Shantideva, foi passado a escrito no séc. VIII dC. e denomina-se Guia do Modo de Vida do Bodhisattva.
“ Shantideva ensina-nos que é muito mais apropriado ter compaixão que ira para com aqueles que nos fazem mal e sugere que considera as suas acções como produzidas por um estado de ignorância. Isto recorda-nos o preceito do Evangelho cristão de que devemos perdoar os perpetradores do mal «porque eles não sabem o que fazem». De facto Shantideva pede-nos ainda para prosseguirmos e considerarmos aqueles que nos fazem mal, os nossos inimigos, como preciosos, uma vez que eles nos dão a rara oportunidade de praticar a tolerância. Escreve:
Os mendigos são frequentes no mundo, raros são os agressores porque se a ninguém ofendo, ninguém me fará mal.
Um inimigo que sem esforço ganho é um tesouro que surge na minha casa; deve ser-me querido, este auxiliar da minha carreira espiritual.
Guia, VI:106 - 107”
Ao lermos esta passagem da Introdução à edição inglesa do livro “ o Poder da Paciência no pensamento Budista “ da autoria do Dalai Lama reparámos como é clara a ilação que, daqui, se pode retirar para as Artes Marciais.
Combate

Actualmente nas Artes Marciais o combate é uma situação artificial onde nos defrontamos com um “inimigo”, que, na realidade, é um companheiro de treino. Se assumirmos o conselho de Shantideva em relação aos nossos inimigos, o que é que se transforma no combate?
Quando este inimigo artificial nos ataca, passa a ser visto como um emissor de estÃmulos cujo único objectivo é desencadear em nós reacções nos nÃveis fÃsico, emocional e intelectual.
De que tipo são essas reacções? São calmas e controladas? São lúcidas?
Ou, pelo contrário, são instintivas, tensas e dinamizadas pelo ego que nos grita : Eu tenho que ser melhor que ele! ... Quando deveria gritar : eu tenho que ser melhor que eu próprio!
Ser melhor que ele ou que eu próprio! Em ultima análise importante é ser melhor. Mas ser melhor em relação a quê ? Que referência escolhemos para avaliar a nossa evolução? A qualidade técnica e a eficácia marcial ou o autocontrole fÃsico, emocional e mental?
Quando, escolhemos ser melhor que os outros estamos a guiar-nos por referências externas. Se, pelo contrário nos decidimos pelo auto controle escolhemos referencias internas. �quele denominamos combate externo a este combate interno
Como praticantes em que ponto de vista nos colocamos? No do combate externo ou no do combate interior?
A propósito, lembro-me de um conselho que, em criança, ouvi repetidas vezes da boca do meu avô : «é mais forte aquele que se vence a si próprio que o que conquista cidades!»
Com toda a convicção aconselhamos, vivamente, a opção pelo combate interior. Neste caso o combate torna-se o cadinho que o alquimista usa para transmutar a matéria bruta em elixir de Vida, e nós, assumimos o papel do alquimista. Só desta forma o combate é um instrumento pedagógico.
Este campo de batalha interior, que é inerente aos impulsos da vida autoconsciente, é uma escola para a disciplina e educação do nosso ser mais inferior. Nesta escola as qualidades substituem progressivamente as fraquezas, as insuficiências, os medos etc...
Por ser próprio da estrutura psicológica humana, e portanto universal, esta luta interna, que gera uma tensão de que resulta a aprendizagem e o crescimento, é representada simbolicamente em todas as culturas.
Cristianismo
Um dos sÃmbolos da tradição cristã para a luta interior é a figura equestre do S. Jorge matando o dragão com a lança. Como todos os sÃmbolos também este pode ter múltiplas interpretações. Apresentamos em seguida uma interpretação metafórica á luz da visão que temos vindo a apresentar.
Neste conjunto os intervenientes são três: S. Jorge, o cavalo e o dragão. O S. Jorge representa o ser superior, espiritual, o cavalo os corpos fÃsico e energético e o dragão o ser inferior, a energia animal, a força do fogo telúrico, que se encontra na base do corpo fÃsico, a energia do Kundalini.
A lança que o S. Jorge empunha não é um instrumento de morte, mas de vida. Ela liga o superior com o inferior. Ã? como o caduceu de Hermes e o canal Shushumna. Ã? por ela que as energias criativas se elevam, subindo da base da coluna vertebral até ao topo, até ao superior humano. Ã? um sÃmbolo alquÃmico para a transmutação do homem velho, que, sem o saber, vive servindo o dragão, pelo homem novo, que, consciente e pacientemente, alquimizou e integrou aquela energia, acumulando o potencial para a sua consciência dar um salto quântico para planos mais vastos. Neste S. Jorge a lança fecha o circulo, como a cobra que morde a própria cauda o faz. Ã? a representação bidimensional da espiral da consciência que se alarga e sobe no espaço.
Neste sÃmbolo o intermediário entre o inferior e o superior é o cavalo. Ele é o campo de entrosamento, de confronto, de alternância e de fusão das duas energias: a que vem do Céu e a que vem da Terra. Por isso o cavalo é a chave. Ã? nele que tudo se passa. Tudo se manifesta pela sua acção. Mas o cavalo não é selvagem, pois se o fosse não aceitaria obedecer ao cavaleiro. Seria rebelde, não agiria ao serviço do espÃrito como elemento intermediário, e, portanto, a fusão entre o espiritual e o telúrico não ocorreria.
Ã? absolutamente necessário que o cavalo seja disciplinado. Ã? indispensável que o cavaleiro tenha a força de vontade e a autoridade necessárias para desenvolver, ao máximo, as capacidades fÃsicas e as potencialidades energéticas do seu cavalo. Só assim, este, será veÃculo para a energia espiritual que emana do cavaleiro.
Não é o S. Jorge, mas o seu cavalo que, com as patas, domina o dragão. Isto significa que, sem a acção do corpo, o espÃrito não pode utilizar a lança, não pode agir para alquimizar a força telúrica que só pode ser dominada pelo cavalo e no cavalo. Ã? aqui que as Artes Marciais têm um papel de relevo.
Ã? o trabalho de educação mente-corpo, sob a vigilância das qualidades e energias espirituais mais elevadas, que deve ser emblemático nas Artes Marciais e que no combate se deve tornar explÃcito.
Artes Marciais como método pedagógico
Ã? pelos exercÃcios que levamos o corpo a executar, que o educamos e desenvolvemos. Mas durante a educação do corpo estamos continuamente a aprender. Quando correctamente conduzido, o exercÃcio destas disciplinas faz afluir à consciência objectiva a sabedoria, de milhões de anos de evolução, que estão registados na consciência de cada célula do nosso organismo.
Apenas quando cavalo e cavaleiro estão preparados, quando a sua unidade se torna consciente, sentida e harmoniosa, estamos prontos a transmutar e a assimilar a energia do dragão.
Estar preparado significa ter desenvolvido qualidades, entre as quais a força de vontade, e ter construÃdo o corpo energético, o que, em conjunto, permite lidar com a energia do fogo da criação fÃsica, sem ser por ela consumido. Nestas condições é possÃvel absorvê-la no espirito e, com essa renovada força criativa e construtiva, contribuir para, fortalecer a partir do seu interior, os oprimidos, os indefesos, os que de alguma forma estão fragilizados e, ainda, lutar pelo esclarecimento dos que estão fascinados pela consistência, ilusória, da realidade objectiva.
Ã?, com este incremento energético que é possÃvel concretizar, com êxito, a nossa missão na Vida .
Metaforicamente falando, a educação do cavalo é um objectivo básico, em várias Tradições, que se pode alcançar pela prática do Yoga indiano, do Chi Kung taoista, dos exercÃcios que os cristãos primitivos praticavam ou das Artes Marciais. São exercÃcios psicofÃsicos onde o conhecimento sensitivo do corpo, o controle da respiração, o desbloqueio dos canais de energia e a abertura dos centros energéticos, permitem a absorção da energia que existe à nossa volta e que, em diferentes culturas, se denomina Prana, Chi ou Consciência do Cósmico.
Todos estes exercÃcios nascem no pensamento, apoiam-se na respiração, são comandados pela vontade, canalizados pelo olhar interno e exteriorizados no corpo cuja vivência alimenta e vitaliza o pensamento criativo.
A principal consequência directa deste processo é o aumento da força vital e consequentemente da saúde.
Conclusão
Freud disse: O corpo é a fonte de toda a experiência mental. E alguém disse : Conhece-te a ti mesmo, pois, o que não encontrares em ti próprio não encontrarás em parte alguma.
Pelo trabalho fÃsico inteligente e intenso desenvolvem-se a autodisciplina e o autodomÃnio que são os alicerces para a construção das qualidades do carácter. Este trabalho tradicional das Artes Marciais visa, numa primeira fase a educação do ser exterior para que este se prepare e deseje ser veÃculo de expressão do ser interior, que, assim, fica livre.
Depois desta libertação vem o crescimento. Este constitui o trabalho mais avançado das Artes Marciais. Quando o praticante se investe integralmente neste processo estas artes transformam-se, deixam de ser marciais, ainda que exteriormente o continuem a ser. Ã? aqui que começa o verdadeiro “ caminho do guerreiro”.
As condições para esta realização passam pela criação de um ego forte, disciplinado e altruÃsta e pelo Serviço que conduz invariavelmente o buscador sincero ao Amor Impessoal, à harmonização consigo e com tudo o que o rodeia.
LuÃs VirgÃlio Cunha
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