Jiseido em Portugal
artigo Kenji Tokitsu - Tradução LuÃs VirgÃlio Cunha
Em finais de Março tivemos um estágio de fim-de-semana em Lisboa. Nos últimos anos, os estágios que se realizam três vezes por ano, na Primavera, no Verão e no Outono, tornaram-se acontecimentos regulares. Na Primavera e no Outono os estágios realizam-se em fins-de-semana e têm a duração de três dia. No Verão temos um estágio com a duração de uma semana.
Foi há mais de 10 anos que fui a Portugal pela primeira vez. O meu livro “Méthode des Arts Martiaux à Main Nues” foi publicado em 1988 em França e foi muito divulgado. Um português leu este livro e ficou muito impressionado, o que aconteceu igualmente aos seus colegas instrutores de Karaté. Recebi a seguinte carta de uma pessoa representando este grupo:Ficámos muito impressionados e comovidos pelo seu livro. Nós praticamos Karaté Shotokan há 20 anos.
Aprendemos com a maioria dos instrutores de Shotokan na Europa, mas, nos últimos anos tornámo-nos crÃticos em relação ao karaté Shotokan. Estudando-o, notámos que tem vários defeitos. No seu livro aponta-os com muito rigor e clareza. Temos procurado melhorar os seus defeitos trabalhando na mesma direcção que indica no seu livro.
Após ter lido esta carta respondi da seguinte maneira:
Estou muito satisfeito por saber que concorda comigo, mas deixe-me perguntar-lhe qual o objectivo da sua carta. Se estuda e pratica karaté no mesmo nÃvel que eu, gostaria de trocar as minhas ideias consigo numa ocasião apropriada. Contudo considero que procurar uma resposta mantendo algumas dúvidas sobre o karaté é uma coisa, mas possuir a resposta é outra. Presentemente, na Europa, há muitas pessoas que procuram respostas enquanto mantêm as dúvidas, mas muito poucos descobriram a resposta. A qual destes grupos pertence?
Escrevi intencionalmente uma carta provocatória e recebi a resposta imediatamente:
Por favor queira desculpar-nos por lhe termos enviado uma carta pouco delicada. Como disse, estamos ainda à procura de respostas. GostarÃamos de convidar o Mestre para realizar um estágio em Lisboa num futuro próximo. Poderá aceitar o nosso convite?
Reparei que o tom da carta tinha mudado. Por isso desloquei-me a Lisboa há 12 anos. A primeira visita foi como um teste para ambos. Passámos o teste, pois temos tido estágios há mais de 10 anos. Ã? LuÃs Cunha, arquitecto, que desempenha um papel importante, com instrutor, em Lisboa. Ã? um ano mais novo que eu. Há outro instrutor, LuÃs Carvalho, engenheiro, da mesma idade de Cunha. Estes dois instrutores são os lÃderes. José Manuel, Martinho, Filipe. etc. ajudam-nos como assistentes. Maria Amélia pertence a este grupo.
LuÃs Cunha era muito forte em kumite há muito tempo e criou uma pequena mas sólida Escola Tradicional de Karatédo há cerca de 20 anos.
Ele não gostava do Karaté que estava institucionalizado. Optou mesmo por se afastar das competições de modo a prosseguir a prática do karaté como algo que deseja continuar pelo resto da sua vida. Tem um filho de 24 anos e uma filha de 22. Ambos entraram para a Faculdade de Arquitectura. O filho formou-se no ano passado mas começou a trabalhar como pintor, pois prefere a pintura à arquitectura. Está muito satisfeito, pois vendeu 7 dos seus quadros. Agora soube que está a pintar na Alemanha. A sua filha está ainda na universidade.
O horário de pratica de karaté deste grupo é diferente do usual. De inÃcio, o Dojo era um ginásio privado na cidade de Lisboa. De manhã eles praticavam das 7 à s 8h30. Depois de praticarem, demoravam muito tempo no duche e, a seguir, vestiam-se para irem trabalhar. De manhã, o vestiário- balneário estava cheio de vida. Como Lisboa é uma cidade pequena, eles podem ter aquele ritmo. Nós em Tóquio não o poderÃamos fazer da mesma forma. Mas este tipo de vida não seria ideal para um empregado em Tóquio? Ã? tarde, a prática dura das 7h30 à s 9h00. Na Europa geralmente é assim. Quando vou a Lisboa dirigir um estágio, na Sexta-feira à tarde praticam das 19h00 à s 21h30. No Sábado e no Domingo de manhã o treino é das 9h00 à s 12h00 e à tarde das 17h00 à s 19h30.
Um dos meus prazeres em Lisboa è a comida. Não, devo dizer que em todos os paÃses onde vou, cerveja, vinho e a comida regional, depois da prática, são dos meus grandes prazeres. Tento saborear a comida local aonde quer que vá. A melhor comida em Portugal é o peixe e eu procuro beber apenas vinho branco com peixe mas o vinho tinto é igualmente delicioso.
Planeio visitar Portugal no próximo mês de Julho. Iremos dirigir um estágio de uma semana em Cortegaça, que se localiza a cerca de 40 Km a sul da cidade do Porto. Esta vila é perto do mar mas a água é demasiado fria par tomar banho. Apesar disso há muita gente que se diverte nadando e fazendo surf.
O local onde nos alojaremos e onde decorre o estágio é um centro cultural propriedade da igreja católica. � a Casa de S. Paulo. Um quarto com casa de banho privativa pode acomodar duas pessoas. A cafetaria e refeitório é no piso térreo. De manhã praticamos da 7h às 9h e em seguida tomamos o pequeno almoço. Depois vamos para a praia. O almoço é à 1h da tarde e depois praticamos das 16h às 19h. O jantar começa às 19h30.
O que é interessante é o que fazemos depois do jantar. Depois de estarmos algum tempo à mesa, vamos novamente à praia onde damos um longo passeio. Em breve o sol põem-se no horizonte tornando o céu avermelhado. Todos junto, apreciamos o espectáculo. Por vezes penso como é que os Portugueses, durante o perÃodo das Descobertas, imaginariam o mundo para lá do horizonte enquanto admiravam essa mesma imagem.
Depois do sol se pôr completamente, vamos para os carros e dirigÃmo-nos à vila mais próxima para comer lagosta e marisco. Comemos lagosta com cerveja ou vinho branco. Isto tornou-se um hábito durante o estágio de verão em Cortegaça. Voltamos para a residência cerca das 11h30 da noite, depois de conversarmos agradavelmente. Ã? totalmente diferente do mesmo tipo de estágios que tinha no Japão quando era estudante. Claro que os participantes não são todos estudantes e este estágio em Cortegaça é um acontecimento muito agradável para eles. Desde que não interfira com a prática do dia seguinte penso que é correcto. Todos se divertem e praticam intensamente.
Este estágio de uma semana é um programa duro para eles. No último dia temos uma sardinhada nos jardins da Casa de S. Paulo. Assamos sardinhas frescas no carvão e comemo-las acompanhadas de vinho branco. Convidamos um acordionista e rapidamente todos dançam ao som da música.
De inÃcio, eles não tinham a intenção de transformar a sua associação numa grande organização, pois preferiam manter a Escola como um pequeno e sólido grupo. Por isso, há muitos membros antigos. LuÃs Cunha tem 52 anos. Nesta altura ele deve pensar no significado da sua vida e tomar consciência do longo tempo que já viveu. Os seus filhos já são adultos e ele diz que deseja viver uma vida agradável e coerente enquanto se questiona sobre o significado da vida.
Além da casa onde agora vive, herdou um conjunto de lojas. Decidiu transformá-las num Dojo cujas obras apenas recentemente foram concluÃdas. Tem 110 m2 e amplos vestiários e balneários. Ã? um grande Dojo que foi desenhado pelo próprio arquitecto. Ã? diferente dum ginásio e é realmente um Dojo. Os membros podem praticar tanto quanto quiserem. Na parede principal do Dojo encontro pendurados os caracteres japoneses Jisei Budô que foram despreocupadamente escritos por mim. De futuro passarei também a dirigir estágios neste Dojo.
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par Kenji Tokitsu - publié dans ??