Corpo elástico e flexÃvel do Jisei budô
Arte marcial externa e arte marcial interna
LuÃs VirgÃlio Cunha
ETK - Contribuir para o desenvolvimento global do ser humano
Platão 428-347 a.C. |
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Sobre educação, Platão, discÃpulo de Pitágoras, refere na “Republica” os inconvenientes de se desenvolverem ou as capacidades fÃsicas ou as mentais sem se atender a uma relação de equilÃbrio entre ambas. No primeiro caso desenvolve-se a agressividade, no segundo a sensibilidade. Em termos orientais dir-se-ia que os primeiros se tornarão desiquilibradamente Yang, e os segundos demasiadamente Yin. Assim, deste ponto de vista, a educação não poderá prescindir do cultivo interactivo destes aspectos complementares do ser humano.
No Oriente o trabalho com o corpo esteve sempre presente na acção educativa. Pelo contrário, no Ocidente, apenas hoje se atribui ao corpo grande importância como meio para agir pedagogicamente sobre a mente. Ã? neste domÃnio que as Artes Marciais Orientais têm um papel relevante, na condição de serem orientadas com referências éticas e motivações construtivas. Nesta perspectiva a prática de uma Arte Marcial desenvolve e aprofunda as relações entre as qualidades fÃsicas e as suas correspondentes mentais de forma a tornar mais firmes na personalidade as qualidades do carácter.
Assim se podem desenvolver saudavelmente e em conjunto as potências corporais, a sensibilidade e a clareza mental.
Jisei budô
A origem próxima do Jisei budô é o karaté. Karaté significa literalmente “mãos vazias”. Esta é a forma como, em artes marciais, se designa o facto do combate se travar sem armas, mas a expressão “mãos vazias” encerra significados mais profundos, sendo uma forma simbólica de referir leis mentais e psÃquicas que são colocadas em acção durante um combate. A investigação do mestre Kenji Tokitsu neste domÃnio levou-o a desenvolver um método que permite ao praticante a sua própria descoberta dos princÃpios que constituem a essência das artes marciais orientais. Este método abrange um conjunto de técnicas marciais que Kenji Tokitsu hoje designa por Jisei budô. Ji significa o próprio , Sei significa forma r e Budõ pode traduzir-se por quem procura formar-se a si próprio. Verificamos com satisfação que o termo Jisei budô traduz perfeitamente a divisa da ETK - " contribuir para o desenvolvimento global do ser humano " .
O Jisei budô, enquadra-se na dimensão cultural que as Artes Marciais, por influencia do Budô, passaram a assumir no nosso século. Esta dimensão das Artes Marciais acentuou-se quando deixaram de ter uma finalidade funcional. Por isso, às artes marciais passou a acrescentar-se o sufixo Do que significa via ou caminho ( Judo, Aikido, Kyu Do, Karate Do, Kendo etc.). As Artes Marciais passaram então a ser utilizadas como meios de auxiliar o praticante a alcançar uma dimensão humana muito mais ampla que a proporcionada pelos horizontes circunscritos de um sistema de defesa pessoal.
Corpo elástico e flexÃvel do Jisei budô
O Jisei Budo é uma arte marcial onde se desenvolve a descontracção, a flexibilidade, a elasticidade, a velocidade, a força, a resistência e a rapidez de movimentos a par de qualidades como a calma, a elasticidade mental, a rapidez de raciocÃnio, a concentração, a força de vontade, a imaginação e o auto controle.
No Jisei budô , quando se exercitam as capacidades fÃsicas procuram fortalecer-se as correspondentes qualidades mentais. O veÃculo de ligação entre estes dois campos de acção é o que se denomina - corpo energético .
No Jisei budô , o treino fÃsico não constitui um fim em si próprio, mas uma forma de fortalecer qualidades mentais, psicológicas e psÃquicas num corpo fÃsico energético e fortemente vitalizado, ou seja num corpo saudável e resistente a doenças.
Treinar com esta perspectiva é completamente diferente do treino que visa o corpo fÃsico e pouco mais. Os resultados que se alcançam desta forma são muito mais ricos e gratificastes e simultaneamente inesgotáveis. A progressão não tem limite por isso o Jisei budô pode ser praticado ao longo de toda a vida, aumentando as capacidades do praticante numa progressão quase geométrica em relação aos anos de prática e por isso com a idade..
Pode dizer-se que quem treina Karaté pensando unicamente nas qualidades fÃsicas está a praticar uma arte marcial externa. Por outro lado os que assumem o exercÃcio fÃsico como uma forma de mobilizar, activar e potenciar o corpo energético para através dele agir sobre o homem interior fortalecendo as suas qualidades, estão a praticar uma arte marcial interna .
Naturalmente que em ambos os casos o corpo, com a sua fisiologia, músculos e articulações e ossos, é o sustentáculo destas duas concepções. Cada uma delas permite desenvolver, pela metodologia e exercÃcios que utiliza um tipo de corpo com qualidades especÃficas diferentes.
Arte marcial externa e arte marcial interna
A arte marcial externa visa desenvolver uma grande capacidade de contracção muscular, ao ponto de, ao desferir a pancada (atemi), o corpo se transformar num bloco maciço como se de um enorme martelo se tratasse.. Neste caso a técnica realiza-se quando a vontade é focalizada nas grandes massas musculares para, primeiro, as colocarem em movimento com grande rapidez e para, logo depois, estancar bruscamente o movimento com uma intensa crispação muscular. A vontade actua directamente sobre os músculos e estes sobre as articulações e o esqueleto. Os exercÃcios fÃsicos executados segundo este princÃpio debilitam a saúde e provocam lesões no aparelho locomotor (em especial na coluna vertebral, zona lombar e cervical, nos joelhos, nos cotovelos e nos ombros). . Os efeitos de um atemi desferido segundo estes princÃpios são superficiais.
Por outro lado a arte marcial interna procura desenvolver um corpo forte e flexÃvel, bem descontraÃdo, com grande capacidade de sustentação e de mobilização muscular, utilizando músculos e tendões como se de molas pneumáticas se tratassem. Em termos de modelo mental, todo o corpo é concebido como não tendo ossos, como sendo uma enorme massa lÃquida de densidade variável cuja energia potencial interna é, no momento do atemi, injectada no interior do corpo do adversário onde se transforma em energia cinética, provocando danos em profundidade. Na arte marcial interna a acção muscular é desencadeada, indirectamente. A concentração mental e a respiração usadas adequadamente, aumentam a pressão e a densidade no centro da massa fluÃdica (hara) em que, para o praticante da arte marcial interna o corpo se transforma (referimo-nos ao modelo mental, à concepção dos movimentos que dele decorre e ao tipo de sensações especÃficas que a acção fÃsica neste ambiente mental produz)
A intensidade com que o treino fÃsico é focalizado pela qualidade da respiração no exercÃcio das capacidades mentais e psÃquicas é determinante da qualidade da arte marcial interna. Esta prática, baseada numa concepção própria e em imagens especÃficas que acompanham o executar das técnicas, permite desenvolver sensações cuja consciencialização determina a qualidade de reacção do corpo. Com o tempo a vivência que temos do corpo transforma-se. Ã? possÃvel captar novas sensações que vão ampliar a concepção mental inicial, enriquecer a imagem visualizada e alargar os horizontes em que nos movimentamos. Assim, as técnicas passam a ter uma nova dimensão que se reflecte na sua eficácia prática. Este é um processo de aprofundamento em espiral.
Um corpo trabalhado pelos exercÃcios internos tem caracterÃsticas mais próximas de um fluido que de um sólido. Nele existe mais liberdade para os fluidos vitais circularem, maior espaço e abertura para esses fluidos serem captados e assimilados e, principalmente, é criado um ambiente global no ser que é favorável ao expressar criativo da mente, pois o corpo energético deixa de estar encerrado num corpo fÃsico tenso e de ser continua e imperceptivelmente consumido pela tensão e rigidez musculares.
Ã? à forte plasticidade e fluidez, fÃsica, energética e mental, que é alicerçada na concentração, dirigida pela vontade e canalizada pela respiração, que denominamos corpo elástico e flexÃvel.
� este tipo de corpo saudável que o Jisei budô tem como modelo de desenvolvimento para os seus estudantes
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